sábado, 24 de setembro de 2011

das coisas feitas de amor

       A atmosfera lúgubre do lugar envolvia todos os presentes como uma névoa. O ar tornara-se pesado de tanta lamentação. Algumas velas, cuja chama não era necessária, derretiam calmamente no próprio ritmo sobre castiçais de bronze, o sol poente entrava diretamente pela porta da frente, trazia uma iluminação laranja ao piso de madeira e um pouco de calor à pele das pessoas. Sentadas nas cadeiras haviam algumas senhoras, pessoas entravam, saíam, trocavam poucas palavras, e despediam-se. Os lenços já encharcados de lágrimas,  e as vidas cheias de desgraças.
       O negro das roupas engolia todas as cores do lugar, sapatos de couro ressoavam à cada passo no assoalho de madeira escura. A garota, no centro, era a única manifestação de cor do lugar. As pequenas profusões de cores do arco de flores sobre sua cabeça contrastavam com o cabelo negro. O vestido branco de várias camadas lhe descia até os pés descalços, e sobre todo o corpo uma mortalha de linho branco lhe cobria e deixava apenas a cabeça para fora. Sob a mortalha via-se o contorno dos nós dos dedos sobre a barriga e alguns anéis dourados.  
       Debaixo do burburinho de sussurros uma senhora comentou com o rapaz ao lado - "Sabe, vendo ela assim, tão calma, ela parece um anjo dormindo." - A garota estava de olhos fechados, os cílios compridos enredavam-se uns nos outros. A boca levemente aberta deixava uma pequena parcela dos dentes à mostra atrás dos lábios pintados de vermelhos. As arestas protuberantes da face da garota estavam começando a tornarem-se levemente pálidas. Novamente, a senhora falou em tom baixo. - "Você era o que dela?" - O rapaz olhou para a senhora, com os olhos vermelhos que já tanto chorara, e disse baixo, com pouca força para falar. - "Namorado." - E a senhora perguntou, mas não obteve resposta. - "Você deve estar sentindo bastante falta dela, não é?"
       Ele levantou-se, prostrou-se de pé diante do caixão, e beijou a garota na testa. Ao encostar os lábios sentiu o gelado da pele e o cheiro das flores. Alguns presentes notaram a movimentação do rapaz, mas pouco importaram-se, cada um estava absorto nas suas próprias mágoas. Com um movimento de braço o rapaz retirou a mortalha de linho que cobria a garota e segurou suas mãos. Suas lágrimas já haviam se esgotado de tanto que outrora ele chorara. Ele aproximou seu rosto da garota, embora sabendo que não seria mais ouvido, ainda assim disse. - "Eu não tenho mais lágrima alguma pra chorar, todo meu sofrimento as secou, e agora só me resta despedir-me de ti. Mas isso não significa que eu vou te esquecer."
       Dentre os anéis, um em formato de cobra, no polegar, um com uma pequena pérola, no dedo médio, e por fim, no anelar, um dourado de filigranas prateadas, ele retirou o terceiro, o dourado, e colocou-o em seu próprio dedo. Recolocou a mortalha no lugar, e ajeitou a coroa de flores. - "Você sempre foi linda, e sempre será, pois eu nunca esquecerei teu rosto, teus lábios vermelhos sempre estarão estampados na minha memória."
       A senhora observava todos os movimentos do rapaz atentamente, e falou para ele. - "Menino, senta aqui, vem, conversa comigo." - Ele olhou para a senhora, e sorriu. Sentou-se novamente ao lado dela.
A senhora aparentava estar no fim da vida, a pele branca sustentava as rugas, e a alvura do rosto escondia olhos negros e lívidos. E ela falou ao rapaz. - "Sabe, todos que estão aqui amam muito ela." - O rapaz endireitou-se na cadeira e respondeu. - "Mas todos que estão aqui a amam por serem familiares, foram obrigados a amá-la por terem conhecido-a desde o começo da sua vida, e a amam pois inevitavelmente ela fazia parte da vida de todas estas pessoas." - Ele tomou fôlego, a garganta arranhava conforme ele falava as palavras com o som fraco, estava rouco. Pigarreou e continuou. - "Já eu não, eu escolhi amá-la. Eu abri as portas da minha vida e ela tomou conta da minha casa."- Ele rodava o anel de filigrana no dedo. - "Ela foi embora, não se despediu."
       A senhora olhava para o rapaz, atenta, ouvido cada palavra que ele dizia. O burburinho de palavras camuflava-os, as coisas que ele falava eram inaudíveis à todos se não à senhora. - "Eu era capitão do nosso barco, fazia-nos navegar pelo mar da vida, conduzia-nos através das tempestades. Mas daí ela decidiu simplesmente se jogar na água, desistir da viagem e deixar a água tomar conta de seus pulmões. . ." - A fala dele foi interrompida pela tosse seca da senhora, que disse. - "Continue, continue, eu estou ouvindo."
Ele continuou.
       As mãos juntas, a cabeça baixa, não olhava para a senhora enquanto falava. - "Nós enlaçamos as nossas vidas e criamos o nosso reinado de felicidade sob o nosso teto, éramos rei e rainha dos nossos caprichos. Das nossas paredes nós fizemos testemunhas do nosso amor, os espectadores monolíticos da epopeia que era a nossa paixão. Éramos performáticos, sensualistas e exagerados. Declarações de amor eterno em voz alta, poesias rabiscadas nas paredes, beijos e sorrisos em demasia. Escrevemos um no outro o primeiro capítulo de nossas vidas juntos. E envoltos na coberta macia que eram os nossos carinhos nós nos escondíamos da aspereza da vida lá fora. Mas ela se foi. E agora ela me deixou aqui pra terminar essa história sozinho." -  Suas mãos estavam suadas. Os dedos contraíam-se, relaxavam-se, e as lágrimas secas de outrora, já voltavam. Os olhos começavam a ficar vermelhos, a visão começara a ficar turva.
       - "Sabe, ela gostaria de ouvir tudo isso." - Disse a senhora.
       - "Quisera eu que ela estivesse aqui para ouvir isto." - Respondeu ele.
       - "E ela está." - Disse a senhora, sem hesitar.
       O rapaz olhou para o caixão, as lágrimas nos olhos só lhe permitiam ver um borrão de cores-de-flores.
       - "E não é aí que ela está." - Disse, novamente, a senhora.
       E o rapaz continuou. - "Ela se foi. Está em um lugar mais feliz agora. A felicidade que ela tanto almejara, uma hora eu sabia que ela iria conseguir. Sua alma se foi, esvaneceu-se no éter da nossa memória. E agora só nos resta despedir-nos da casca que ela nos deixou. O corpo inerte. O elo físico da memória. Que agora, nesse momento, nós iremos enterra-lo para que sempre tenhamos uma imagem perfeita de sua beleza. Seu corpo será esquecido, mas sua alma nunca. Nunca esqueceremos da sua voz, nunca esqueceremos da sua beleza, das suas canções. E estas lágrimas que hoje nós choramos irão se cristalizar e formar as paredes de vidro do castelo que será a tua morada eterna. As lágrimas que hoje nós choramos por amor à tu que se foi, serão a fundação das coisas feitas de amor que sustentarão a casa que será a tua morada eterna na nossa memória."
       Ele olhou para o caixão, a luz do por do que incidia diretamente sobre a pele pálida da garota criava um tom alaranjado, e sombras nos contornos das marcas de expressão. As contas das pulseiras de ouro refletiam uma centelha de luz sob os pontos largos da mortalha de linho. Os cabelos enredados nas flores absorviam o calor do sol. E quem quer que se aproximasse, tocasse as madeixas negras, sentiria o calor, e de fato diria que ela aparentava estar apenas dormindo.
       Algumas pessoas chegavam, trocavam algumas palavras com a família, despediam-se do corpo e saíam. Roupas negras de despedida e palavras vazias de consolo. O ar quente do final do verão soprava pelo cômodo e trazia o cheiro de grama para o lugar. Os tecidos balançavam, as jóias brilhavam e as pétalas se espalhavam. As laterais cor-de-ébano do caixão eram o repouso das mãos dos visitantes. Ninguém se atrevia a encostar nela. E todos diziam a mesma coisa. -"Ela está serena, parece que está dormindo" -
       O rapaz olhava para o chão escuro de madeira, as marcas de sapatos no chão encerado. Perdia-se nos pensamentos e nas lembranças. Ao olhar novamente para a senhora ele viu que ela lhe olhava com um sorriso discreto e contido. E ele novamente falou. - "Ela foi embora. Por egoísmo tirou a própria vida sem se importar com o amor que nós sentíamos por ela. Tirou-nos toda a felicidade que ela proporcionava-nos. E cruelmente, como se o nosso barco tivesse batido em um recife, ela afundou-se na depressão, deixou-se levar pela maré da tristeza. E no momento em que seus pulmões encheram-se de água ela não quis nadar. Ela deixou-se afundar. Recusou as boias que todos nós jogávamos para ela. Agora quem cospe a água salgada somos nós. Nós que amarga-mo-nos por não termos segurado a sua centelha de vida. Deixamos o último fio de vitalidade ser levado pela correnteza. E sem se despedir ela misturou-se nas ondas. Fora levada de nós. A espuma branca da água agora mistura-se com o branco das suas roupas. Quisera eu que ela estivesse aqui para ao menos ouvir a nossa despedida."
       O rapaz novamente olhou para a senhora, viu a peculiaridade das coisas que não tivera visto antes. Enquanto ela olhava-o e sorria pacientemente ele esquadrinhou-a. Viu as roupas negras, os xales de renda sobre os ombros. Os olhos escuros, cheios de luz. As rugas na pele branca. O corpo atarracado. As mãos. Os dedos repletos de anéis. Um de cobra, um de pérolas, e um de filigranas. Assustou-se com a coincidência. E olhou para os olhos da senhora, que abriu-lhe um largo sorriso e lhe disse. - "Ela está aqui sim para ouvir você despedir-se." - Ao completar a frase a senhora levantou-se. Ele atônito não conseguia sair do lugar. Conforme a senhora caminhava em direção à porta ele viu que os pés dela estava descalços. A bainha da saia estava molhada e cheia de areia. Viu pétalas de flores nos cabelos. Ele tentou segui-la com os olhos, mas a luz do sol cegou-lhe a visão. Ele levantou-se e foi atrás dela. Ao chegar à porta ele não viu ninguém. Nem um sinal da senhora. Ouviu o barulho de mar. E uma risada. Não uma risada irônica e zombeteira. Era uma risada familiar, uma risada de quem guarda um segredo.
       A mãe da garota aproximou-se dele e disse. - "Menino, vamos pra casa, você passou o dia todo aí, sentado na cadeira sozinho. Precisa comer alguma coisa."
       Ele virou-se, e sorrindo dirigiu-se à garota.
       Com um beijo na testa despediu-se. 

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