terça-feira, 29 de maio de 2012

Visceral. . .

. . . uma das minhas palavras favoritas. Em geral as com V e SC são as melhores, Visceral tem os dois. Palavra dita assim na ponta da língua, sibilando entre os dentes e terminando nos lábios.
        E você vive assim, eu sei.
        Sibilando suas palavras e terminando nos lábios tudo o que diz. Essa língua de cobra que destila todos os seus pensamentos. Nós nunca dizemos integralmente o que pensamos. Nós temos medo. E nossas palavras são filtradas por todas as convenções que um dia o homem criou apenas para poder viver pacificamente.
        Tudo por causa das malditas palavras.
        Você tem idéia do que elas causam?
        Nós mentimos e dissimulamos. Enganamos, trapaceamos. Tudo apenas com as nossas palavras.
        Si-bi-lan-do.
        E o que as palavras causam em você?
        Você já chorou por causa de alguma?
        Eu sei que sim.
        Quando você chorava, encolhido debaixo das cobertas, uma palavra, apenas uma única, ressoava dentro de você.
        Você sabe qual.
        Ela sibilava.
        E você achava que essa palavra era a causa de todos os seus problemas.
        Talvez fosse a sua solução.
        Si-bi-lan-do.
        Sibilando dentro de você estava aquela palavra. Destilada pelo tempo, corroída pela dor. Você deixou de pensar nela. Você sabia que se pensasse nela sentiria novamente o salgado das lágrimas no seu rosto.
        O que você esconde?
        Não escondemos nada dos outros. Escondemos de nós mesmos. Mantemos a pose, escolhemos as palavras que vamos dizer. Somos modelados por todos os padrões. Mediamos o que somos. Mais isso não importa. O que importa é o que você esconde de si mesmo. Quem é que são os outros?
        Olhe para você. O que você é?
        Que palavra é essa que você acha que pode resolver todos os seus problemas?
        Olhe para si mesmo e você vai chorar. Chorar pois vai ver que nós somos fracos. Vai ver que todos nós estamos vivendo apenas para algo que todos nós sabemos que vai acontecer. Chorando porque sabe que ninguém vai lembrar de você. E você chora. E guarda a sua palavra.
        O que aconteceria se você a dissesse?
        O que você esconde dos outros?
        Diga para mim, o que você tem para me falar.
        Mas fale para si mesmo.
        Me dê a sua palavra.


        Esconda-se de si mesmo.
Fuja das suas próprias palavras.
Guarde o seu medo.
E me conte depois.

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