sábado, 12 de novembro de 2011

Sufoco.

Tente respirar. E você vai ver que o ar do lugar não é suficiente.
Bata nas paredes e ouça o som metálico da sua voz caindo pelo fosso.
Veja a imagem desfocada dos seus olhos vermelhos no espelho.

De manhã, você fez a barba, escovou os dentes, e veio.

Você está preso entre o décimo, e o décimo primeiro andar.

Se não fosse tão baixo, você tentaria abrir as portas. Você sabe que se você forçar, e tentar sair pelo vão, o elevador pode descer e você vai ser cortado pelo meio. Feito aqueles filmes de terror.

Tente gritar. E você vai descobrir que não há mais ninguém no prédio.
O aço escovado reflete todo o seu desespero. E você está enclausurado na cápsula metálica.
Você liga o celular e lembra daquela aula do ensino médio: "elevadores criam uma blindagem eletrostática."
Você lembra disso, mas não lembra da merda do aniversário da sua mãe.
Se essas aulas tivessem servido para algo você não estaria aqui, agora.

Tudo o que você fez durante toda a sua vida encaminhou você para esse momento.

Continue batendo nas paredes, amasse o metal. Machuque os nós dos dedos. Pinte o prateado de vermelho.
Você não vai à lugar algum.
Cinco segundos, e você teria ido pelo elevador de serviço.
Tudo o que você fez, te trouxe pra cá.

Chore. Esbraveje. Aproveite para derramar suas lágrimas enquanto ninguém vem buscar você. Você está sozinho.
Você sempre esteve sozinho.
Você não tem mulher, não tem filhos. Ela te largou.
"Eu vou fazer um aborto, quem sabe eu vá morar com a minha mãe. Eu só não quero te ver mais."
Quem sabe se as aulas do ensino médio não tivessem te levado pra outro lugar e ela também não estaria lá.

Viva para esse seu emprego de merda. Seu apartamento alugado. Volte de metrô para casa.
"Eu sou o lixo orgânico da sociedade."
Largue esse livro. Ele não vai fazer o tempo passar mais rápido. Quem sabe o tempo nunca mais passe pra você. E você fique preso nessa caixa de metal.
Quem sabe o zelador encontre seu corpo sufocado pela manhã.
"Olha senhor policial, ele sempre é o último a sair. Eu acho que ele ficou preso no elevador. Entrou em pânico e se 'engasgou' com a gravata."

Tente gritar mais uma vez. E ouça o eco dos anos perdidos.
Quem sabe, se você tivesse passado naquela faculdade, você não estaria aqui.
Você pensa na sua vida. Pensa na comida na geladeira. Você sabe que ninguém vai tirar ela de lá. Pense nas baratas. Nos ratos nos armários. Pense nos seus medos.
Você pegou uma canetinha da pasta, e está desenhando nas paredes. Você queria faculdade de arte, não queria? Seus pais não colocavam fé no seu futuro.
E você acabou sem futuro. Em um emprego de escritório, que paga mal, e te humilha.

Acenda um cigarro.
Você não tem muito mais tempo de vida. Pra que se importar?
Nunca nem você mesmo se importou.
Nunca ninguém se importou.
Você durante toda a sua vida nunca foi cobrado. Só tinha que fazer a sua obrigação, nada mais.
Você não tem méritos. Você nunca foi o primeiro a ser escolhido na educação física. Nunca foi o mais esperto da faculdade. Nem tinha a namorada mais bonita, ou o carro do ano. Nunca teve o melhor lugar para morar.
Todos nós fomos criados para sermos melhores, criados para nos acharmos únicos em alguma coisa.
"Você é o lixo orgânico da sociedade."

As cinzas grudam no suor do seu peito. A camisa está aberta, o cigarro pende frouxo na boca.
Você relaxa. Adormece. Espera que aquilo passe logo.
Afinal, você vai ser achado de manhã. Jeito ou outro, mas vai.

Sinta a brasa arder no seu peito. Sinta o cheiro do poliéster queimando.
Sua camisa está pegando fogo. Você a tira rapidamente e a joga no chão.
Você se queimou um pouco. O peito e os braços estão ardendo.
O elevador está tomado pela fumaça cinza. E o ar se torna ainda mais difícil de respirar.

Você acorda, e se lembra onde está. Vê a camisa consumida pelas chamas no chão. Seus braços ardem.
Você encosta-os na parede de metal.
Isso é sangue nas minhas mãos?
O alumínio gelado alivia a dor, mas não cura.
Toda sua vida foi assim. Alivia, mas não cura. A dor acumulou-se nos seus poros durante os anos, algumas noites bem dormidas aliviavam as brigas com a ex-esposa. Ganhe seu salário no final do mês, e ele aliviará a culpa da faculdade desperdiçada. Veja a vida de um filho escorrer pelas mãos, foque apenas no trabalho, ocupe a sua mente com outras coisas. Ela foi embora, agora você tem o apartamento só para você.

Alivia, mas não cura.

Chorar não vai fazer a dor passar. Não vai fazer você esquecer as lembranças. Você não tem ninguém para te ouvir. Você está sozinho. Na vida. No prédio.

Você acordou, e achou que ia ter um dia bom. Comprou um vinho para tomar de noite, uma massa para o jantar. Eles ficaram no carro.
Será que alguém vai se lembrar de retirá-los?
Baratas. Vinagre.

Você pensa a quanto tempo está lá. Tem certeza de que já se passaram mais de horas.
Você tenta forçar as portas. E se depara com quarenta centímetros de laje bem na altura do seu peito. Você não vai conseguir forçar a porta de cima, ela está muito alta. Tampouco a de baixo, se o os freios do elevador escorregarem, você morre.
Pelo menos a porta aberta cria uma ventilação melhor.
O cheiro de queimado continua insuportável.

Alivia, mas não cura.

Foque no trabalho. Apanhe os papéis da pasta e leia-os. Suas mãos estão sujas de fuligem e mancham os papéis.
Você tem que entregar este relatório amanhã para o seu chefe.
O tempo não vai passar.

Chute as paredes. Você está com raiva. Veja o metal se curvando sob a sua força.
Ouça o eco das batidas vindas pelo fosso.
Você é esse eco. Tudo o que você viveu até agora, serviu para te fazer terminar nesse último segundo de som.
Você está resignado. Acostumou-se com a sua vida-de-inércia. Você só tem o que tem, porque é assim que as coisas são. Você nunca quis mais, nunca quis melhorar. Você nunca esteve acima da média. Você é o eco de todas as suas decisões anteriores.

Isso tem que acabar. O elevador. A sua vida.
Você calmamente empurra para cima a cobertura de plástico do elevado, amarra a gravata na armação de aço. Apoiado nas laterais, você se ergue, e a passa pelo pescoço.
Tudo o que você fez, te levou até aqui.
A queda não é suficientemente alta para quebrar o seu pescoço.
O ar ainda tem cheiro de queimado. Está difícil você respirar por aqui.
Uma pessoa normal leva de cinco a quinze minutos para morrer asfixiada.

E você lembra das aulas. Lembra do passado. Lembra de tudo aquilo que você tem vergonha. Lembra do filho que você não teve. Lembra da esposa que lhe deixou.
Você tem dor. Você se debate pendurado. Seus chutes batem no espelho, que se quebra em milhares de cacos coloridos.
Você tenta tirar a gravata do seu pescoço, sente suas próprias unhas lacerando a sua carne. Sente as veias dilatadas no pescoço sangrando.

A gravata se rasga, e você cai no chão. O boneco inerte cai sob os cacos de vidro e se rasga inteiro. O sangue se mistura com os cacos de espelho. As pupilas frias refletem no mar de vidro pintado de vermelho.
Agora já é tarde demais.

Você sabe que ninguém vai buscar você. A comida vai ficar esquecida na geladeira.
Ninguém vai no seu velório. 
Todas as suas memórias, todo o seu passado, se esvaindo no último suspiro de vida.
Se a gravata tivesse rasgado cinco segundos antes, você teria sobrevivido.
Tudo o que você fez, te levou até aqui.
De manhã vão achar você. De um jeito ou de outro.

"Olha senhor policial, ele sempre é o último a sair. Eu acho que ele ficou preso no elevador. Entrou em pânico e se 'engasgou' com a gravata."
"Mas não tem botão de emergência nesse elevador?"
"Tem. Mas ele não viu. Por isso que ele deve ter entrado em pânico."

Você nunca foi acima da média.

4 comentários:

  1. Que texto incrível! Adorei o teu blog.

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  2. Adoro esse texto Lucas!

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  3. Muito bom cara! vou começar a acompanhar haha! a Mari curtiu bastante tbm!

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  4. Puta merda. Esse texto é tudo o que eu queria ter escrito, mas nunca consegui colocar em palavras. Incrível.

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